quarta-feira, 2 de maio de 2012

A tribo Onacirema

Este texto é ótimo para se trabalhar com várias temáticas, principalmente diversidade cultural. Esta é uma versão adaptada (mais didática), o original é bem mais extenso:


RITOS CORPORAIS ENTRE OS NACIREMA - Horace Miner
In: A.K. Rooney e P.L. de Vore (orgs) - YOU AND THE OTHERS - Readings in Int roductor y Anthropology
Cambridge, Erlich)1976



Onacirema


Nós "civilizados" possuímos a tendência de julgar o diferente como inferior, talvez por não querermos entendê-lo.
Existem, no planeta, vários povos e etnias estranhas. Uma delas é o "onacirema". Como esses são esquisitos!
Realizam rituais religiosos estranhos; diariamente praticam rituais de tortura; lutam constantemente entre si e às vezes tiram a vida de seus adversários.
Veja como essa tribo é estranha. O "onacirema", ao acordar, inicia seu ritual de purificação: esfrega um objeto sobre a boca, chegando na maioria das vezes a sangrar e logo após utiliza um objeto cortante bem afiado (quanto mais afiado melhor) e passa pelo seu rosto por minutos (os menos hábeis têm seu rosto e pescoço todo cortado). Feito esse ritual, acha-se pronto para enfrentar o dia. Nessa tribo, existe uma divisão de tarefas: quanto mais peso se pega no exercício da tarefa, menor será sua recompensa, ou seja, quem trabalha menos, ganha mais.
A "anacirema" (assim é chamada a fêmea) realiza ritual para a conquista do macho. Pratica sacrifícios humanos, não de morte, mas de uma espécie de tortura. Se abstém de certos alimentos consumidos pela tribo, chegando a ficar bem a baixo do peso normal; as suas estruturas ósseas tornam-se visíveis. As que chegam a esse estado ou pelo menos próximo dele, são admiradas; já aquelas que não se torturam acabam sendo rejeitadas pelos homens da tribo.
Nessa tribo, a fêmea pinta sua face com tintas de cores fortes e com um objeto perfurante, atravessa seu corpo em vários locais (nariz, seios, sobrancelhas, orelhas, umbigo, lábios, órgão sexual...) onde pendura objetos, que segundo ela, atraem os machos. Já o "onaciremo" para atrair a fêmea, realiza três vezes na semana um ritual onde esse tortura seu próprio corpo, levantando objetos pesados por várias vezes durante, pelo menos, uma hora, chegando a derramar litros de suor. Quanto maior o sacrifício, melhor.
Em seu ritual religioso demonstram uma estranheza incrível: adoram seu deus com rituais exaustivos, chegam a andar quilômetros de joelhos carregando um peso sobre o corpo, assim acreditando eles, que terão respostas dos céus.
Nas noites de sábado, depois de todos os rituais, chega a hora de espantar de suas mentes algo parecido como um espirito ruim, adquirido nas suas tarefas diárias. Reúnem-se e ao som de uma música bem alta, começam a realizar uma espécie de dança de purificação da mente, onde acreditam que estarão libertos de um tipo de espirito.
Como essa tribo é esquisita! O "onacirema" é ou não diferente? A propósito, o nome dessa tribo foi digitado de trás para frente, mas isso não muda em nada, seja "onacirema" ou americano, são todos esquisitos.

Adaptado por Cristiano Bodart de RITOS CORPORAIS ENTRE OS NACIREMA (Horace Miner).

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Plano de Aula: ESTIMULANDO O OLHAR SOCIOLÓGICO: A DESMECANIZAÇÃO DO OLHAR PARA O ESTRANHAMENTO DA REALIDADE - André Furtado Lima e Érica Martins

Proposta para a série: 1° Colegial
Carga horária prevista: Quatro aulas (200 min) no total.
Parte I: duas aulas (100 min.) e Parte II: duas aulas (100 min.).


OBJETIVO

A desnaturalização da realidade, por dificilmente se despertar de modo espontâneo, pode, através do estímulo do docente, evidenciar as contradições existentes na sociedade como um todo.
Proporcionar aos alunos os primeiros contatos com a Sociologia, seus temas e abordagens, evidenciando que, para realizar este exercício, precisamos estar munidos de ferramentas teóricas que nos auxiliem a compreender a dinâmica social. Neste sentido, o primeiro passo é demonstrar que a vida em sociedade não é algo que se explica de imediato, isto é, as relações sociais possuem uma lógica que não está completamente esclarecida no momento em que as realizamos (na grande maioria das vezes, não pensamos nestes significados).
A desnaturalização da realidade aparece, portanto, como um “antídoto” à “tendência [...] a se explicarem as relações sociais, as instituições, os modos de vida, as ações humanas, coletivas ou individuais, a estrutura social, a organização política, etc. com argumentos naturalizadores.” (OCNS, 2006, p.105-106) A desnaturalização recoloca as relações sociais na ordem dos fenômenos dotados de historicidade, disso depreende-se a necessidade de compreendê-los à luz das mudanças e continuidades, dos interesses e dos laços culturais que determinam porque agimos socialmente desta ou daquela maneira.
Muito embora esta ferramenta teórica seja de uso contínuo (mas não exclusivo) da disciplina de Sociologia, exercitar o uso desta significa estimular o exercício de abstração, que apenas se faz através da análise e desconstrução daquilo que nos é apresentado pelo senso-comum. O objetivo, portanto, é mostrar ao aluno o problema da imediaticidade do senso-comum, destituído de reflexão, ou seja, que a realidade é muito mais complexa do que se mostra à princípio.


METODOLOGIA:

Parte I: Desnaturalizando o olhar
Esta aula é interessante para trabalhar como introdução ao estudo de Sociologia, portanto faz-se necessário uma aula ou explicação sobre o que é a sociologia e sua importância para a compreensão da realidade. Apontar ainda que, assim como a construção do conhecimento, o olhar sociológico também faz parte de um processo que se desenvolverá durante o decorrer do Ensino Médio e, por vezes, por toda a vida do aluno. Os textos “O que é a Sociologia” e “O nascimento da Sociologia” no Cap. I (“A Aventura Sociológica”) de Helena Bomeny e Bianca Freire-Medeiros podem servir de apoio didático.
A charge da Mafalda e o poema “A exceção e a Regra” de Bertolt Brecht podem servir de introdução ao tema. Levantar um debate acerca do que é natural e do que é construído na vida do homem, buscando apontar que o estranhamento da própria realidade é um primeiro passo para o exercício do olhar sociológico.
Após uma explanação teórica sobre o tema, sugerir que os alunos caminhem pelo colégio e façam anotações sobre tudo o que for habitual, comum: desde a estrutura do prédio até o comportamento de alunos e trabalhadores (professores, servidores, equipe gestora). Provocar com questionamentos como: em que bairro a escola se situa? Onde fica a secretaria? Ela tem grades? Onde fica o refeitório, ele é de fácil acesso? Os alunos comem a merenda oferecida? Tem cantina? Todos os alunos compram coisas da cantina durante o intervalo? Tem latas de lixo espalhadas? Tem muitos funcionários? Como é o relacionamento dos funcionários com os alunos? Como é o uniforme da escola? Os alunos gostam? Vocês já se perguntaram para quê serve o uniforme escolar? Tem alguma hierarquia na organização das salas? E os banheiros, ficam próximos das salas de aula? Eles têm espelho?
Na volta à sala, discutir alguns pontos interessantes anotados pelos alunos e comentar à respeito da organização em geral: que tudo é construído a partir da lógica de alguém ou de um grupo, nada é feito ao acaso e que é importante começar a questionar o porque das coisas serem como são.
Para a próxima aula, solicitar que os alunos tragam recortes de notícias de jornal e/ou revistas de acontecimentos que se tornaram banais, triviais nos meios de comunicação e que não deveriam ser naturalizados.

Parte II: O imediatismo do olhar e o senso comum
Para dar início à esta nova etapa, pode ser utilizada a tirinha do Calvin, como forma de sensibilizar os estudantes e retomar a discussão da aula anterior.
Em seguida, pode-se utilizar jornais e outros materiais advindos dos meios de comunicação como exemplo da urgência da exposição de fatos e eventos e de como tal excesso de informação atrapalha uma reflexão aprofundada sobre os acontecimentos do cotidiano (desinformação), infundindo, dessa forma, o senso comum. (Exemplo: “Allison Stokke conquistou uma fama inesperada e indesejada graças a uma única foto” .
Pode-se também utilizar como exemplo, dados estatísticos governamentais para evidenciar a contradição entre a realidade e entre o que nos é apresentado.


RECURSOS UTILIZADOS:

Tv Pen-Drive, Imagens representativas para serem distribuídas (quadrinhos, pintura de M. C. Escher e a reportagem), giz, lousa.


AVALIAÇÃO

Para avaliar a aprendizagem desta unidade, sugere-se a seguinte atividade, inspirada no Caderno de Sociologia, 1° série, vol. 1, do Estado de São Paulo:
Treino do olhar sociológico: A partir da metodologia utilizada para investigar a estrutura da escola (durante a parte I), peça aos alunos que escolham um lugar, fora da escola, para ser analisado. Os alunos devem escolher lugares que não costumam freqüentar, ou seja, locais que não fazem parte de seu cotidiano. Esta orientação tem o sentido de evitar que a análise seja realizada a partir de conhecimentos prévios. Por exemplo: se um aluno é católico e resolve analisar a própria igreja que freqüenta, ele poderá ser levado a registrar eventos que não está efetivamente observando, mas que presenciou em alguma visita anterior. Portanto, reforce a idéia de que esta atividade é um treino do olhar e, desta maneira, ele só pode registrar aquilo que de fato está vendo.
Estabeleça algumas regras junto aos alunos: a atividade não deve ser realizada em locais onde a entrada de menores é proibida, ou mesmo em locais que ofereçam algum tipo de risco para os alunos. Peça aos mesmos que permaneçam no local tempo suficiente para investigar como os seus freqüentadores se comportam; como eles falam, se vestem, o que fazem, etc. Estimule visitas a locais que os alunos, dentro de seu cotidiano, dificilmente freqüentariam, afinal, quanto mais diferente, mais divertida a atividade pode ser! Por último, deixe bem claro que a descrição do local é secundária, o que realmente importa é a descrição das pessoas que estão no local, utilize este momento para reforçar que a Sociologia possui como objeto de estudo o homem e suas relações sociais.


RESULTADOS

A presente atividade pretende introduzir os alunos no universo da Sociologia, no entanto, cabe ressaltar que este é apenas um “primeiro esforço” e, neste sentido, muitas outras atividades deverão ser realizadas para estimular a imaginação sociológica dos estudantes. Como resultado da atividade de avaliação, conforme nossas experiências, espera-se que os alunos encontrem algumas dificuldades para realizar uma descrição imparcial. Utilize o espaço da sala de aula para debater os resultados da pesquisa e coloque em discussão eventuais problemas que possam ser encontrados, como análises preconceituosas ou excessivamente superficiais. Esta atividade também pode ser constantemente revisitada, sugerindo que os alunos observem como se dão as relações sociais em espaços triviais, como uma fila de banco ou o interior de um ônibus urbano.


REFERÊNCIAS

BOMENY, Helena; FREIRE-MEDEIROS, Bianca (org.). Tempos Modernos, Tempos de Sociologia. SP: Editora do Brasil, 2010.

FINI, Maria Inês (coord.). Caderno do Professor: Sociologia, ensino médio – 1° série / volume 1. São Paulo, SEE, 2009.

BRASIL. Ministério da Educação.Secretaria de Educação Básica. OCNS. Orientações Curriculares Nacionais: Sociologia. MORAES, Amaury C.; GUIMARÃES, Elisabeth da Fonseca; TOMAZI, Nelson D., 2006.

TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia para o Ensino Médio. São Paulo: Saraiva, 2010.


Anexos:





“Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso
Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra”.
(Bertolt Brecht - A exceção e a Regra)



Gravura de M. C. Escher





Musas do esporte: Allison Stokke conquistou uma fama inesperada e indesejada graças a uma única foto


Allison Stokke era uma atleta de salto com vara como outra qualquer até meados de 2007, quando a foto acima mudou sua vida, transformando a norte-americana em uma musa do atletismo dos EUA. Curiosamente, a bela morena nem sequer sabia da existência da imagem até que um amigo avisou que a foto em questão se espalhava pelos computadores norte-americanos.
A imagem da bela morena ajeitando seu cabelo enquanto se prepara para mais um salto é a razão de uma fama inesperada e, principalmente, indesejada para a garota da Califórnia. “Eu trabalhei tanto para o salto com vara e com tudo isso acontecendo é como se meu esforço não valesse nada. Ninguém nota isso”, lamentou a gata em entrevista ao prestigiado jornal Washington Post, no auge da sua “fama”.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Se os tubarões fossem homens - Bertolt Brecht

Se os tubarões fossem homens, perguntou ao senhor K. a filha de sua senhoria, eles seriam mais amáveis com os peixinhos? Certamente, disse ele. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e tomariam toda espécie de medidas sanitárias.

Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, lhe fariam imediatamente um curativo, para que não morresse antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres tem melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar. O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam evitar toda inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e avisar imediatamente os tubarões, se um deles mostrasse tais tendências. Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, iriam proclamar, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não podem se entender. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de argaço e receberia um título de herói. Se os tubarões fossem homens, naturalmente haveria também arte entre eles. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores soberbas, e suas goelas como jardim que se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos nadando com entusiasmo para as gargantas dos tubarões, e a música seria tão bela, que seus acordes todos os peixinhos, como orquestra na frente, sonhando, embalados, nos pensamentos mais doces, se precipitariam nas gargantas dos tubarões. Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa apenas na barriga dos tubarões. Além disso, se os tubarões fossem homens também acabaria a idéia de que os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores poderiam inclusive comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles teriam com maior freqüência, bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, construtores de gaiolas, etc. Em suma, haveria uma civilização no mar, se os tubarões fossem homens."





sexta-feira, 18 de junho de 2010

Características da Consciência Ingênua x Consciência Crítica

Fonte: FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. RJ: Paz e Terra, 1979.



** Características da Consciência Ingênua **


1) Revela uma certa simplicidade, tendente a um simplismo, na interpretação dos problemas, isto é, encara um desafio de maneira simplista ou com simplicidade. Não se aprofunda na causalidade do próprio fato. Suas conclusões são apressadas, superficiais.

2) Há também uma tendência em considerar que o passado foi melhor. Por exemplo: os pais que se queixam da conduta de seus filhos, comparando-a ao que faziam quando jovens.

3) Tende a aceitar formas gregárias ou massificadoras de comportamento. Esta tendência pode levar a uma consciência fanática.

4) Subestima o homem simples.

5) É impermeável à investigação. Satisfaz-se com as experiências. Toda concepção científica para ela é um jogo de palavras. Suas explicações são mágicas.

6) É frágil na discussão dos problemas. O ingênuo parte do princípio de que sabe tudo. Pretende ganhar a discussão com argumentações frágeis. É polêmica, não pretende esclarecer. Sua discussão é feita mais de emocionalidades que de criticidades: não procura a verdade; trata de impô-las e procurar meios históricos para convencer com suas idéias. Curioso ver como os ouvintes se deixam levar pela manha, pelos gestos e pelo palavreado. Trata de brigar mais, para ganhar mais.

7) Tem forte conteúdo passional. Pode cair no fanatismo ou sectarismo.

8) Apresenta fortes compreensões mágicas.

9) Diz que a realidade é estática e não mutável.



** Características da Consciência Crítica **

1) Anseio de profundidade na análise dos problemas. Não se satisfaz com as aparências. Pode-se reconhecer desprovida de meios para análise de problemas.

2) Reconhece que a realidade é mutável.

3) Substitui situações ou explicações mágicas por princípios autênticos de causalidade.

4) Procura verificar ou testar as descobertas. Está sempre disposta à revisões.

5) Ao se deparar com um fato, faz o possível para livrar-se de preconceitos. Não somente na captação, mas também na análise e na resposta.

6) Repele posições quietistas. É intensamente inquieta. Torna-se mais crítica quanto mais reconhece em sua quietude a inquietude, e vice-versa. Sabe que é na medida que é e não pelo que parece. O essencial para parecer algo é ser algo; é a base da autenticidade.

7) Repele toda transferência de responsabilidade e de autoridade e aceita a delegação das mesmas.

8) É indagadora, investiga, força, choca.

9) Ama o diálogo, nutre-se dele.

10) Face ao novo, não repele o velho por ser velho, nem aceita o novo por ser novo, mas aceita-os na medida em que são válidos.

domingo, 6 de junho de 2010

Movimentos Sociais - Texto didático de apoio

Fonte:
OLIVEIRA, Luiz Fernandes de. Os Movimentos Sociais. In: Sociologia para jovens do século XXI. OLIVEIRA, Luiz Fernandes de; COSTA, Ricardo Cesar Rocha da (org.). RJ: Imperial Novo Milênio, 2007. (p. 103-106)




Os Movimentos Sociais


Num recente artigo, o professor Solon Annes Viola (2003), da UNISINOS, descreve que:

Segundo Kissinger, "a globalização é tão natural como a chuva". Por certo Kissinger não conhece as múltiplas regiões do Brasil. No Nordeste brasileiro chove pouco; no Sul, ao longo do inverno, as chuvas são abundantes e ocorrem, no mínimo, duas enchentes por ano. E logo em seguida faz as seguintes perguntas: Seria o Sul mais globalizado que o Nordeste? O ciclo das chuvas regulado por grandes empresas, pelos organismos financeiros internacionais como o G7, a OMC e o Banco Mundial? O fato de que a quinta parte da gente mais rica do mundo consumir 85% de todos os produtos e serviços, enquanto que a quinta parte mais pobre consome somente 1/3% seria tão natural, quanto a chuva? Seria tão natural que 4 bilhões e 400 milhões de habitantes dos países mais pobres, aproximadamente três quintas partes da população mundial não possuam acesso à água potável, uma quarta parte não possua moradia, e uma quinta parte não tenha acesso a nenhum tipo de assistência médica? Seria tão natural, como a chuva que 20% da população mundial consumam 86,5% das energias fósseis e hidráulicas do planeta? Seria possível que o mesmo nível de consumo fosse colocado à disposição de todos sem que houvesse um gigantesco desastre ambiental, tão terrível quanto a prolongada seca, ou tão arrasador quanto as enxurradas das enchentes? Seria tão natural quanto a chuva que americanos e europeus gastem 17 milhões de dólares em alimentos para animais por ano, 4 milhões de dólares a mais do que se necessita para promover a alimentação e saúde básica para os que não possuem? Seria tão natural como o sol que 300 milhões de crianças ocupem postos de trabalhos forçados e outras 37.000 morram diariamente de pobreza relacionada à subnutrição e à ingestão de águas contaminadas e resíduos tóxicos?


Depois de perguntas tão chocantes podemos também perguntar: será que não existe ninguém que esteja fazendo algo contra estas barbaridades existentes no mundo? Sim, existe, mas nem sempre essas pessoas que lutam contra este estado de coisas são vistas com bons olhos.
Nos dias de hoje, ouve-se muito a respeito dos movimentos sociais. A mídia está sempre noticiando a respeito deles, seja, Sem-Terra, Greepeace ou as ONGs "Anti-globalização". Mas o que são movimentos sociais? O que pretendem? Por que surgem em diversos momentos históricos? Como são constituídos?
Os movimentos sociais estiveram e estão presentes em toda a história de todas as sociedades. Temos que compreendê-los como um fenômeno essencial, porque são resultados de um "conflito" que gera, consequentemente, mudanças sociais. Ao mesmo tempo, tais movimentos geram transformações porque sujeitos ou grupos que não concordam com determinada situação procuram maneiras de modificá-la.
Nesse sentido, o conflito é o elemento gerador dos movimentos sociais. E por que se chega a estes conflitos? Simplesmesnte porque, [...], as sociedades não são homogêneas e se dividem a partir de certos interesses de classe, gênero, etnia, raça ou, até mesmo, de orientação sexual e de geração. Há sempre grupos de opressores e oprimidos, gerando uma carência de bens materiais e culturais a determinados grupos.
A partir disto, certos grupos sociais, que se sintam prejudicados, ou oprimidos de alguma forma, vão se unir a fim de eliminar ou, ao menos, amenizar a opressão. A essa união chamamos de ações coletivas.
É necessário saber que os movimentos sociais possuem uma relação de conflito com o Estado, pois, como vimos, nem sempre este satisfaz a vontade coletiva, se restringindo à vontade daqueles que dominam os recursos materiais da sociedade e aos seus interesses.
Enquanto os movimentos sociais desejam modificações, mudanças, o Estado, na maioria das vezes, deseja manter a ordem das coisas ou, como dizem os especialistas, o status quo.
Um movimento social só tem força quando possui uma proposta, ou seja, os fins que almeja alcançar. Por isso, há a necessidade de um projeto. A ideologia também é um fator importante, já que reflete a visão de mundo dos indivíduos que fazem este movimento, suas perspectivas, as mudanças que ambicionam, o mundo que esperam.
Por fim, a organização é muito importante, poque ela é a base do movimento, essencial para o seu sucesso político. Afinal, sem instrumentos eficazes de comunicação e sem recursos financeiros mínimos, os movimentos sociais acabariam apresentando resultados mais limitados na sua ação política.
A cada dia sempre surgem e surgirão mais movimentos sociais, pois, numa sociedade com muitas desigualdades e com o Estado mostrando-se incapaz de satisfazer as necessidades dos diferentes grupos sociais, podemos afirmar que esses movimentos são quase que naturais "como a chuva". É uma infinidade de grupos que lutam contra o preconceito, o racismo, o desemprego, a falta de moradia, os salários rebaixados, o autoritarismo, contra o descaso com o meio ambiente, com a criança, com o idoso, com a educação, com a saúde, etc.
As necessidades são infinitas e é por isso que existem os sem-terra, o movimento negro, o movimento de mulheres, os movimentos contra a discriminação de gays e lésbicas, os sindicatos, os grêmios estudantis, o movimento ecológico, o movimento pelos direitos humanos, os partidos de esquerda e algumas ONGs.
Precisamos ter clareza, tomar consciência de nossos direitos, identificar onde estão os males sociais, para não utilizarmos nossa indignação contra aqueles que, talvez, sejam tão vítimas quanto nós.
Por outro aldo, devemos ver com os olhos críticos por que se fala tão mal de certos movimentos sociais. Aqui, nosso olhar sociológico deve mais do que nunca funcionar, pois devemos saber quem faz a crítica e que interesses tem ao fazê-lo. Por exemplo: quando se faz uma crítica ao MST por "invadir" terras, quem está fazendo esta crítica? Os empresários, os donos de terras ou o trabalhador comum das cidades? Por fim, num mundo neoliberal, qual seria a importância dos movimentos sociais e dos partidos políticos?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Homem: Animal Político

Fonte:
DALLARI, Dalmo de Abreu. O que é participação política. 5ª ed. SP: Abril Cultural - Brasiliense, 1984. (p.12-15)


O homem é um animal que não vive sozinho, pois todo ser humano, desde que nasce até o momento em que morre, precisa da companhia de outros seres humanos. Foi observando isso que o filósofo grego Aristóteles escreveu que o homem é um animal político, pois é a própria natureza humana que exige a vida em sociedade.
É importante lembrar que não é só para atender as suas necessidades materiais que o ser humano precisa da companhia de seus semelhantes. Na realidade, o homem é o único animal que durante vários anos depois do nascimento não consegue obter sozinho seus alimentos. E no mundo moderno isso está cada vez mais difícil, mesmo para os adultos, uma vez que a sociedade humana se organizou de tal modo que a grande maioria passa a vida toda consumindo alimentos produzidos por outros.
Mas ao lado disso é preciso assinalar que mesmo o homem mais rico, que tenha dinheiro para comprar e armazenar em casa os alimentos suficientes para toda sua a vida, mesmo esse homem não consegue viver sozinho.
E não é só porque necessita dos serviços dos outros seres humanos para a manutenção da sua casa, o preparo dos alimentos e o cuidado de sua saúde, mas porque todo ser humano tem necessidades afetivas, psicológicas e espirituais, que só podem ser atendidas com a ajuda e a participação de outros seres humanos.
Assim, portanto, a vida em sociedade é uma necessidade da natureza humana, não se podendo falar do homem como indivíduo sem lembrar que esse indivíduo não vive sozinho, mas está sempre relacionado com outros indivíduos. Pode-se resumir essa idéia dizendo que o homem é um ser social por natureza e, por isso, tudo que ele tem ou realiza é tido ou realizado em sociedade.
Outro dado importante que deve ser ressaltado é que todos os seres humanos valem exatamente a mesma coisa. Pondo-se lado a lado dois recém-nascidos, sem revelar a condição social de cada um, ninguém poderá dizer que um vale mais que o outro. Por natureza todos nascem iguais e é a sociedade que estabelece diferenças, o que significa que as diferenças de valor entre seres humanos são artificiais, não naturais. Essa igualdade essencial de todos os seres humanos foi reconhecida e proclamada há milênios e deve ser buscada na organização social, dando-se absoluta igualdade de oportunidades a todos, desde o momento do nascimento. É contra a natureza permitir que uns nasçam ricos e socialmente bem situados enquanto outros nascem miseráveis e condenados a uma vida de sacrifícios e privações e inferioridade social.
Esse reconhecimento da igualdade essencial de todos não quer dizer que não existem diferenças individuais. Embora todos tenham o mesmo valor cada um tem sua individualidade, seu modo de ser, suas preferências, suas aptidões, seu julgamento próprio a respeito dos fatos da vida. O que a experiência comprova é que pessoas criadas no mesmo ambiente, recebendo o mesmo tratamento, sendo educadas da mesma forma, ainda assim apresentam diferenças de comportamento e muitas vezes reagem de maneiras diferentes perante o mesmo acontecimento.
Há, portanto, vários pontos fundamentais que devem ser levados em conta quando se tratar da organização da sociedade. Todos os seres humanos necessitam da vida social e todos valem essencialmente a mesma coisa. Mas cada um tem as características próprias de sua individualidade e por isso a vida em sociedade, embora necessária, acarreta sempre a possibilidade de conflitos.
Na verdade, a ocorrência de conflitos deve ser reconhecida como normal numa sociedade de homens livres. Mesmo que sejam asseguradas oportunidades exatamente iguais a todos, desde o ponto de partida, ainda assim os conflitos não desaparecerão, pois eles decorrem das diferenças de individualidades.
Há pessoas que por medo, comodismo ou por qualquer outra razão têm horror ao conflito e imaginam que seja possível uma sociedade livre de conflitos. Não é raro que tais pessoas acreditem que pelo uso da força todos os membros de uma sociedade poderão ser obrigados a aceitar os mesmos valores, a cumprir passivamente as ordens dos superiores e a se comportar de modo igual em todas as circunstâncias. Mas a história da humanidade e os fatos de todos os dias e de todos os lugares demonstram que onde existirem pessoas vivas existirão conflitos.
Em conclusão, o ser humano não é apenas um animal que vive, é também um animal que convive, ou seja, o ser humano sente a necessidade de viver mas ao mesmo tempo também a necessidade de viver junto com outros seres humanos. E como essa convivência cria sempre a possibilidade de conflitos é preciso encontrar uma forma de organização social que torne menos graves os conflitos e que solucione as divergências, de modo que fique assegurado o respeito à individualidade de cada um.
Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que todos os seres humanos são essencialmente iguais por natureza. Em consequência, não será justa uma sociedade em que apenas uma parte possa decidir sobre a organização social e tenha respeitada sua individualidade.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Alienação

O conceito de alienação - Leôncio Basbaun
Fonte:
Fragmento retirado do livro Alienação e Humanismo, de Leôncio Basbaum, Símbolo, São Paulo, 1977, pp. 17, 24-26. 1ª ed, Fulgor, São Paulo, 1967.



A alienação é, antes de tudo, uma forma de relação entre os homens e determinados objetos ou coisas que lhes são exteriores. Essa forma de relação não é natural. Ela surge em um determinado momento, no processo do desenvolvimento histórico das sociedades humanas. Embora esse desenvolvimento seja criação e exteriorização dele próprio, o homem é profundamente afetado pelo processo: aliena-se.
O termo alienação, originariamente – e ainda hoje – era um termo da Psiquiatria que designava uma forma de perturbação mental, como a esquizofrenia – uma perda de consciência ou de identidade pessoal... Do ponto de vista econômico-social, é a perda da consciência de si, em virtude de uma situação concreta. O homem perde sua consciência pessoal, sua identidade e personalidade, o0 que vale dizer, sua vontade é esmagada pela consciência de outro, ou pela consciência social – a consciência do grupo. É uma forma de para-consciência, ou seja, uma consciência particular incompleta, pela qual o homem perde parcial ou totalmente sua capacidade de decisão. É ainda sua integração absoluta no grupo: ele massifica, passa a pertencer à massa e não a si mesmo.
Diz-se ainda que o homem está alienado quando deixa de ser seu próprio objeto para se tornar objeto de outro. Deixa de ser algo para si mesmo. Sua vontade é assim a vontade do outro: ele é coisificado. Deixa de ser homem, criatura consciente e capaz de tomar decisões, para se tornar coisa, objeto.
Com o advento da máquina, o trabalhotornou-se duplamente alienante: à maquina e ao dono da máquina. No período em que vigorava ainda i regime de trocas, o homem, para suprir suas necessidades elementares, devia produzir não apenas aquilo de que necessitava, mas também as necessidades do outro, para qual ele era por sua vez o outro. Era ao mesmo tempo sujeito e objeto. Poderíamos dizer que se tratava de uma alienação parcial.
A introdução da máquina no sistema de produção subverteu totalmente esta situação. A máquina tem esta particularidade: substitui com eficiência o esforço físico humano, mas não dispensa o homem: é sempre necessário para movimentá-la, fazê-la andar corretamente e detê-la no momento preciso.
O homem se torna parte dela, como um parafuso ou uma engrenagem. Não é o homem que produz, é a máquina. O homem limita-se a fazê-la funcionar. O aperfeiçoamento das máquinas, à medida que reduz o esforço físico do homem, mais reduz sua participação e, em consequência, mais reduz sua intervenção consciente no trabalho. A máquina moderna dispensa a inteligência e a consciência humana, e o anula como homem. Este se torna uma peça de engrenagem cada vez mais insignificante
Nesse sistema mecanizado de produção, o homem não mais produz o que quer. Limita-se a fazer a máquina funcionar. Ignora o destino do seu produto, que não lhe pertence e, quase sempre, nem sabe mesmo para que serve. Recebe apenas um salário em troca da sua força de trabalho, o qual lhe permite recuperar as energias gastas, recompor seu organismo, para que amanhã possa novamente vende-las ao dono da máquina. Ele se coisifica, anula-se nesse processo: é uma máquina, ou um apêndice da máquina, uma estranha máquina cujo óleo combustível é constituído de proteínas. Não é mais um homem com capacidade de pensar, agir, tomar decisões. É apenas uma peça de engrenagem que, quando gasta pelo uso, pode ser substituída.
Para o dono da máquina, ele não passa disso mesmo: uma peça da máquina que deve ser lubrificada diariamente. Não, é claro, com os mesmos cuidados, pois uma máquina custa dinheiro enquanto o homem nada custa: se adoece ou morre,é facilmente substituído pelo exército industrial de reserva, a percentagem fixa de desempregados em cada nação capitalista que impede a luta dos salários.
Assim, o homem, assalariado pelas circunstâncias, não mais se pertence. Como parte da máquina, pertence ao patrão. Sua atividade tornou-se inconsciente e irracional e tanto mais quanto mais se aperfeiçoa a máquina: tornou-se um objeto que nem sequer necessita pensar.
E isso vale não apenas para a fábrica mas para toda atividade humana nesse processo de mecanização crescente que é o sistema capitalista de produção: o datilógrafo diante de sua máquina de escrever, o contador diante de sua máquina de calcular. Num caso, como noutro, o produto não é determinado pelo homem que trabalha mas pelo dono da máquina.
O ‘amor ao trabalho’ transforma-se numa expressão hipócrita cínica, pois nada significa e não tem outro objetivo senão condicionar o homem, desumanizando-o, tirando-lhe a capacidade de optar em sua vida. Como pode amar o trabalho uma pessoa que passa 8 ou 10 horas por dia apertando o mesmo pedal ou mesmo o botão, ou escrevendo ‘prezado Sr.’ Mil vezes por dia? Nessas condições o trabalho torna-se realmente maldição, e essa maldição, esse trabalho maldito, é obra do capital, da propriedade privada.