quarta-feira, 2 de abril de 2014

Vladimir Maiakovsky

Vladimir Maiakovsky (ou Maiakovski), poeta russo futurista, um dos grandes nomes da arte modernista dos anos 20 e grande "publicitário" da revolução Russa.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.




A política é a busca do “bem comum”?! Antônio Ozaí da Silva

Texto excelente para discutir com terceiros anos sobre o mito da busca do "Bem Comum" na política.

“A política tem como objetivo a realização do bem comum”. Eis a definição mais comum sobre a política. Será que ela dá conta da complexidade que envolve a esfera da ação política? O que é o “bem comum”?
A sociedade é cindida em grupos e classes sociais com interesses contraditórios e antagônicos. A característica principal da nossa sociedade é a competição pautada no individualismo. Será possível harmonizar demandas tão díspares? Na verdade, é a desarmonia, os conflitos, as diferença e as desigualdades sociais que tornam a política necessária. São diversos interesses econômicos, sociais etc., em permanente colisão. A política é um recurso, uma tentativa de garantir a ordem e impedir a desagregação da sociedade enredada, como diria Thomas Hobbes, na guerra de todos contra todos.
A ideia de que a política objetiva o bem comum, a justiça, o bom governo etc., remonta à tradição aristotélica e ao pensamento cristão medieval. Trata-se de uma concepção política que indica o ideal. Também tem caráter republicano: res publica significa “coisa pública”. Esta põe em relevo a comunidade, o bem comum e afirma sua predominância em relação aos interesses particulares. O Estado é visto como a expressão da “coisa pública”.
É sensibilizante a ideia de que dedicamos nossa vida ao bem comum, para que todos possam viver dignamente. Mas a realidade é cruel e mostra o antagonismo entre os diversos interesses. A universalização produzida pelo Estado é uma tentativa de ocultá-la. Já Maquiavel observou que a política é sobretudo a arte de conquistar, dominar e manter o poder político. E este se caracteriza pela coerção e uso legitimado da violência. A visão ingênua sobre a política desconsidera que esta pressupõe não apenas meios persuasivos, mas também violentos. O Estado tem como fundamento a violência, a capacidade da coação física. A ideia do bem comum não contradiz esta lógica, antes a legitima.
Como nota Bobbio, as definições teleológicas sobre a política são prescritivas, isto é, referem-se a como deveria ser o bom governo, o bem comum e a justiça. Não é uma concepção realista. Bobbio considera que os fins, os objetivos da política, são definidos de acordo com os interesses dos grupos e classes dominantes: “Os fins da política são tantos quanto as metas que um grupo organizado se propõe, de acordo com o tempo e as circunstâncias”. Ele questiona a noção de bem comum, um conceito de “extrema generalidade, pela qual pode significar tudo ou nada”. O bem comum, “se quisermos atribuir um significado plausível, ele nada poderá designar senão aquele bem que todos os membros de um grupo partilham e que não é mais do que a convivência ordenada, numa palavra, a ordem”.
Assim, o bem comum cumpre função retórica e é meio ideológico de que se servem tanto os idealistas quanto os grupos econômica e politicamente dominantes na sociedade. Estes procuram nos fazer acreditar que seus interesses particulares são universais e que também nos dizem respeito. Vivenciamos isto através da ilusão do Estado enquanto guardião dos interesses comuns, como se este fosse neutro na luta política entre as classes e grupos sociais. É o mito do Estado! Se na religião o vinho e o pão se transubstanciam no sangue e carne de Jesus Cristo e constitui o mistério da fé; na política, o Estado se transubstancia em universal que expressa o bem comum, fazendo com que nos identifiquemos e nos submetamos. A representação política é parte deste processo pelo qual nos reconhecemos no Estado, enquanto indivíduos com direitos políticos, mas em permanente conflito de interesses exclusivistas. Porém, temos o status de cidadãos. Eis o mistério da política!

Fonte: http://antoniozai.wordpress.com/2008/10/25/a-politica-e-a-busca-do-%E2%80%9Cbem-comum%E2%80%9D/
Acesso em 02.04.2014

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Pensar Sociologiamente - Anthony Giddens


Fonte: Anthony Giddens, Sociologia, 5ª edição, F.C. Gulbenkian, Lisboa, 2007, pág.2


A Sociologia é o estudo da vida social humana, grupos e sociedades. É uma tarefa fascinante e constrangedora, na medida em que o tema de estudo é o nosso próprio comportamento enquanto seres sociais.

A esfera de ação do estudo sociológico é extremamente abrangente, podendo ir da análise de encontros casuais entre indivíduos que se cruzam na rua até à investigação de processos sociais globais [como, por exemplo, as migrações e as novas tecnologias de comunicação].

A maior parte de nós vê o mundo em termos das características das nossas próprias vidas, com as quais estamos familiarizados. A Sociologia mostra que é necessário adotar uma perspectiva mais abrangente do modo como somos e das razões pelas quais agimos. Ensina-nos que o que consideramos natural, inevitável, bom ou verdadeiro pode não o ser, e que o que tomamos como 'dado' nas nossas vidas é fortemente influenciado por forças históricas e sociais. Compreender as maneiras ao mesmo tempo sutis, complexas e profundas, pelas quais as nossas vidas individuais refletem os contextos da nossa experiência social é essencial à perspectiva sociológica.

Aprender a pensar sociologicamente - por outras palavras, olhar mais além - significa cultivar a imaginação. Estudar Sociologia não pode ser simplesmente um processo rotineiro de acumulação de conhecimentos. Um sociólogo é alguém capaz de se libertar do quadro das suas circunstâncias pessoais e pensar as coisas num contexto mais abrangente. O trabalho sociológico depende do que o autor americano C. Wright Mills, numa frase famosa, denominou de imaginação sociológica.

Betinho: "A fome é exclusão" e "Poder do Cidadão"

A fome é exclusão.

Da terra, da renda, do emprego, do salário, da educação, da economia, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o que comer é porque tudo o mais já lhe foi negado. É uma espécie de cerceamento moderno ou de exílio. A morte em vida. O exílio da Terra. Mas a alma da fome é política.

A fome é a realidade, o efeito e o sintoma. O ponto de partida e de chegada. A síntese, a ponta do novelo a partir da qual tudo se explica e se resolve. Porque não é episódica, nem superficial, revela fundo o quanto uma pessoa está sendo excluída de tudo e com que frieza seu drama é ignorado pelos outros. (...) Mas a fome é também o atestado de miséria absoluta e o grito de alarme que sinaliza o desastre social de um país, que mostra a cara do Brasil.

(...)

É assustador perceber com que naturalidade fomos virando um país de miseráveis, com que tranquilidade fomos produzindo milhões de indigentes. Acabar com essa naturalidade, recuperar o sentido da indignação diante da degradação humana, reabsolutizar a pessoa como centro e eixo da vida e da ação política é essencial para transformar a luta contra a fome e a miséria num imenso processo de reconstrução do Brasil e de nossa própria dignidade. Por isso é que acabar com a fome não é só dar comida, e acabar com a miséria não é só gerar emprego, mas é reconstruir radicalmente toda a sociedade.



Poder do cidadão

Não é por acaso que a palavra cidadania está sendo cada vez mais falada e praticada na sociedade brasileira. Uma boa onda democrática que vem rolando mundo afora chegou ao Brasil há algum tempo e tem nos ajudado a descobrir como dar conta do que acontece na vida pública.

Cidadania é a consciência de direitos democráticos, é a prática de quem está ajudando a construir os valores e as práticas democráticas. No Brasil, cidadania é fundamentalmente a luta contra a exclusão social e a miséria e mobilização concreta pela mudança do cotidiano e das estruturas que beneficiam uns e ignoram milhões de outros. E querer mudar a realidade a partir da ação com os outros, da elaboração de propostas, da crítica, da solidariedade e da indignação com o que ocorre entre nós.

Um cidadão não pode dormir com um sol deste: milhares de crianças trabalhando em condições de escravidão, trabalhadores sobrevivendo com suas famílias num quadro de miséria e de fome, a exploração da mulher, a discriminação do negro, uma elite rica esbanjando indiferença num mundo de festas e desperdícios escandalosos, de banqueiros metendo a mão no dinheiro do depositante, da polícia batendo em preto e pobre.

A fome é a realidade, o efeito e o sintoma da ausência de cidadania. O ponto de partida e de chegada das ações cidadãs. A negação radical da miséria é um postulado de mudança radical de todas as relações e processos que geram a miséria. É passar a limpo a história, a sociedade, o Estado e a economia. Não estamos falando de coisas abstratas, de boas intenções ou desejos humanitários de alguns.

Cidadania é, portanto, a condição da democracia. O poder democrático é aquele que tem gestão, controle, mas não tem domínio nem subordinação, não tem superioridade nem inferioridade. Uma sociedade democrática é uma relação entre cidadãos e cidadãs. É aquela que se constrói da sociedade para o Estado, de baixo para cima, que estimula e se fundamenta na autonomia, independência, diversidade de pontos de vista e, sobretudo, na ética – conjunto de valores ligados à defesa da vida e ao modo como as pessoas se relacionam, respeitando as diferenças, mas defendendo a igualdade de acesso aos bens coletivos.

O cidadão é o indivíduo que tem consciência de seus direitos e deveres e participa ativamente de todas as questões da sociedade. Um cidadão com sentido ético forte e consciência de cidadania não abre mão desse poder de participação.


Herbet de Souza

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A tribo Onacirema

Este texto é ótimo para se trabalhar com várias temáticas, principalmente diversidade cultural. Esta é uma versão adaptada (mais didática), o original é bem mais extenso:


RITOS CORPORAIS ENTRE OS NACIREMA - Horace Miner
In: A.K. Rooney e P.L. de Vore (orgs) - YOU AND THE OTHERS - Readings in Int roductor y Anthropology
Cambridge, Erlich)1976



Onacirema


Nós "civilizados" possuímos a tendência de julgar o diferente como inferior, talvez por não querermos entendê-lo.
Existem, no planeta, vários povos e etnias estranhas. Uma delas é o "onacirema". Como esses são esquisitos!
Realizam rituais religiosos estranhos; diariamente praticam rituais de tortura; lutam constantemente entre si e às vezes tiram a vida de seus adversários.
Veja como essa tribo é estranha. O "onacirema", ao acordar, inicia seu ritual de purificação: esfrega um objeto sobre a boca, chegando na maioria das vezes a sangrar e logo após utiliza um objeto cortante bem afiado (quanto mais afiado melhor) e passa pelo seu rosto por minutos (os menos hábeis têm seu rosto e pescoço todo cortado). Feito esse ritual, acha-se pronto para enfrentar o dia. Nessa tribo, existe uma divisão de tarefas: quanto mais peso se pega no exercício da tarefa, menor será sua recompensa, ou seja, quem trabalha menos, ganha mais.
A "anacirema" (assim é chamada a fêmea) realiza ritual para a conquista do macho. Pratica sacrifícios humanos, não de morte, mas de uma espécie de tortura. Se abstém de certos alimentos consumidos pela tribo, chegando a ficar bem a baixo do peso normal; as suas estruturas ósseas tornam-se visíveis. As que chegam a esse estado ou pelo menos próximo dele, são admiradas; já aquelas que não se torturam acabam sendo rejeitadas pelos homens da tribo.
Nessa tribo, a fêmea pinta sua face com tintas de cores fortes e com um objeto perfurante, atravessa seu corpo em vários locais (nariz, seios, sobrancelhas, orelhas, umbigo, lábios, órgão sexual...) onde pendura objetos, que segundo ela, atraem os machos. Já o "onaciremo" para atrair a fêmea, realiza três vezes na semana um ritual onde esse tortura seu próprio corpo, levantando objetos pesados por várias vezes durante, pelo menos, uma hora, chegando a derramar litros de suor. Quanto maior o sacrifício, melhor.
Em seu ritual religioso demonstram uma estranheza incrível: adoram seu deus com rituais exaustivos, chegam a andar quilômetros de joelhos carregando um peso sobre o corpo, assim acreditando eles, que terão respostas dos céus.
Nas noites de sábado, depois de todos os rituais, chega a hora de espantar de suas mentes algo parecido como um espirito ruim, adquirido nas suas tarefas diárias. Reúnem-se e ao som de uma música bem alta, começam a realizar uma espécie de dança de purificação da mente, onde acreditam que estarão libertos de um tipo de espirito.
Como essa tribo é esquisita! O "onacirema" é ou não diferente? A propósito, o nome dessa tribo foi digitado de trás para frente, mas isso não muda em nada, seja "onacirema" ou americano, são todos esquisitos.

Adaptado por Cristiano Bodart de RITOS CORPORAIS ENTRE OS NACIREMA (Horace Miner).

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Plano de Aula: ESTIMULANDO O OLHAR SOCIOLÓGICO: A DESMECANIZAÇÃO DO OLHAR PARA O ESTRANHAMENTO DA REALIDADE - André Furtado Lima e Érica Martins

Proposta para a série: 1° Colegial
Carga horária prevista: Quatro aulas (200 min) no total.
Parte I: duas aulas (100 min.) e Parte II: duas aulas (100 min.).


OBJETIVO

A desnaturalização da realidade, por dificilmente se despertar de modo espontâneo, pode, através do estímulo do docente, evidenciar as contradições existentes na sociedade como um todo.
Proporcionar aos alunos os primeiros contatos com a Sociologia, seus temas e abordagens, evidenciando que, para realizar este exercício, precisamos estar munidos de ferramentas teóricas que nos auxiliem a compreender a dinâmica social. Neste sentido, o primeiro passo é demonstrar que a vida em sociedade não é algo que se explica de imediato, isto é, as relações sociais possuem uma lógica que não está completamente esclarecida no momento em que as realizamos (na grande maioria das vezes, não pensamos nestes significados).
A desnaturalização da realidade aparece, portanto, como um “antídoto” à “tendência [...] a se explicarem as relações sociais, as instituições, os modos de vida, as ações humanas, coletivas ou individuais, a estrutura social, a organização política, etc. com argumentos naturalizadores.” (OCNS, 2006, p.105-106) A desnaturalização recoloca as relações sociais na ordem dos fenômenos dotados de historicidade, disso depreende-se a necessidade de compreendê-los à luz das mudanças e continuidades, dos interesses e dos laços culturais que determinam porque agimos socialmente desta ou daquela maneira.
Muito embora esta ferramenta teórica seja de uso contínuo (mas não exclusivo) da disciplina de Sociologia, exercitar o uso desta significa estimular o exercício de abstração, que apenas se faz através da análise e desconstrução daquilo que nos é apresentado pelo senso-comum. O objetivo, portanto, é mostrar ao aluno o problema da imediaticidade do senso-comum, destituído de reflexão, ou seja, que a realidade é muito mais complexa do que se mostra à princípio.


METODOLOGIA:

Parte I: Desnaturalizando o olhar
Esta aula é interessante para trabalhar como introdução ao estudo de Sociologia, portanto faz-se necessário uma aula ou explicação sobre o que é a sociologia e sua importância para a compreensão da realidade. Apontar ainda que, assim como a construção do conhecimento, o olhar sociológico também faz parte de um processo que se desenvolverá durante o decorrer do Ensino Médio e, por vezes, por toda a vida do aluno. Os textos “O que é a Sociologia” e “O nascimento da Sociologia” no Cap. I (“A Aventura Sociológica”) de Helena Bomeny e Bianca Freire-Medeiros podem servir de apoio didático.
A charge da Mafalda e o poema “A exceção e a Regra” de Bertolt Brecht podem servir de introdução ao tema. Levantar um debate acerca do que é natural e do que é construído na vida do homem, buscando apontar que o estranhamento da própria realidade é um primeiro passo para o exercício do olhar sociológico.
Após uma explanação teórica sobre o tema, sugerir que os alunos caminhem pelo colégio e façam anotações sobre tudo o que for habitual, comum: desde a estrutura do prédio até o comportamento de alunos e trabalhadores (professores, servidores, equipe gestora). Provocar com questionamentos como: em que bairro a escola se situa? Onde fica a secretaria? Ela tem grades? Onde fica o refeitório, ele é de fácil acesso? Os alunos comem a merenda oferecida? Tem cantina? Todos os alunos compram coisas da cantina durante o intervalo? Tem latas de lixo espalhadas? Tem muitos funcionários? Como é o relacionamento dos funcionários com os alunos? Como é o uniforme da escola? Os alunos gostam? Vocês já se perguntaram para quê serve o uniforme escolar? Tem alguma hierarquia na organização das salas? E os banheiros, ficam próximos das salas de aula? Eles têm espelho?
Na volta à sala, discutir alguns pontos interessantes anotados pelos alunos e comentar à respeito da organização em geral: que tudo é construído a partir da lógica de alguém ou de um grupo, nada é feito ao acaso e que é importante começar a questionar o porque das coisas serem como são.
Para a próxima aula, solicitar que os alunos tragam recortes de notícias de jornal e/ou revistas de acontecimentos que se tornaram banais, triviais nos meios de comunicação e que não deveriam ser naturalizados.

Parte II: O imediatismo do olhar e o senso comum
Para dar início à esta nova etapa, pode ser utilizada a tirinha do Calvin, como forma de sensibilizar os estudantes e retomar a discussão da aula anterior.
Em seguida, pode-se utilizar jornais e outros materiais advindos dos meios de comunicação como exemplo da urgência da exposição de fatos e eventos e de como tal excesso de informação atrapalha uma reflexão aprofundada sobre os acontecimentos do cotidiano (desinformação), infundindo, dessa forma, o senso comum. (Exemplo: “Allison Stokke conquistou uma fama inesperada e indesejada graças a uma única foto” .
Pode-se também utilizar como exemplo, dados estatísticos governamentais para evidenciar a contradição entre a realidade e entre o que nos é apresentado.


RECURSOS UTILIZADOS:

Tv Pen-Drive, Imagens representativas para serem distribuídas (quadrinhos, pintura de M. C. Escher e a reportagem), giz, lousa.


AVALIAÇÃO

Para avaliar a aprendizagem desta unidade, sugere-se a seguinte atividade, inspirada no Caderno de Sociologia, 1° série, vol. 1, do Estado de São Paulo:
Treino do olhar sociológico: A partir da metodologia utilizada para investigar a estrutura da escola (durante a parte I), peça aos alunos que escolham um lugar, fora da escola, para ser analisado. Os alunos devem escolher lugares que não costumam freqüentar, ou seja, locais que não fazem parte de seu cotidiano. Esta orientação tem o sentido de evitar que a análise seja realizada a partir de conhecimentos prévios. Por exemplo: se um aluno é católico e resolve analisar a própria igreja que freqüenta, ele poderá ser levado a registrar eventos que não está efetivamente observando, mas que presenciou em alguma visita anterior. Portanto, reforce a idéia de que esta atividade é um treino do olhar e, desta maneira, ele só pode registrar aquilo que de fato está vendo.
Estabeleça algumas regras junto aos alunos: a atividade não deve ser realizada em locais onde a entrada de menores é proibida, ou mesmo em locais que ofereçam algum tipo de risco para os alunos. Peça aos mesmos que permaneçam no local tempo suficiente para investigar como os seus freqüentadores se comportam; como eles falam, se vestem, o que fazem, etc. Estimule visitas a locais que os alunos, dentro de seu cotidiano, dificilmente freqüentariam, afinal, quanto mais diferente, mais divertida a atividade pode ser! Por último, deixe bem claro que a descrição do local é secundária, o que realmente importa é a descrição das pessoas que estão no local, utilize este momento para reforçar que a Sociologia possui como objeto de estudo o homem e suas relações sociais.


RESULTADOS

A presente atividade pretende introduzir os alunos no universo da Sociologia, no entanto, cabe ressaltar que este é apenas um “primeiro esforço” e, neste sentido, muitas outras atividades deverão ser realizadas para estimular a imaginação sociológica dos estudantes. Como resultado da atividade de avaliação, conforme nossas experiências, espera-se que os alunos encontrem algumas dificuldades para realizar uma descrição imparcial. Utilize o espaço da sala de aula para debater os resultados da pesquisa e coloque em discussão eventuais problemas que possam ser encontrados, como análises preconceituosas ou excessivamente superficiais. Esta atividade também pode ser constantemente revisitada, sugerindo que os alunos observem como se dão as relações sociais em espaços triviais, como uma fila de banco ou o interior de um ônibus urbano.


REFERÊNCIAS

BOMENY, Helena; FREIRE-MEDEIROS, Bianca (org.). Tempos Modernos, Tempos de Sociologia. SP: Editora do Brasil, 2010.

FINI, Maria Inês (coord.). Caderno do Professor: Sociologia, ensino médio – 1° série / volume 1. São Paulo, SEE, 2009.

BRASIL. Ministério da Educação.Secretaria de Educação Básica. OCNS. Orientações Curriculares Nacionais: Sociologia. MORAES, Amaury C.; GUIMARÃES, Elisabeth da Fonseca; TOMAZI, Nelson D., 2006.

TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia para o Ensino Médio. São Paulo: Saraiva, 2010.


Anexos:





“Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso
Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra”.
(Bertolt Brecht - A exceção e a Regra)



Gravura de M. C. Escher





Musas do esporte: Allison Stokke conquistou uma fama inesperada e indesejada graças a uma única foto


Allison Stokke era uma atleta de salto com vara como outra qualquer até meados de 2007, quando a foto acima mudou sua vida, transformando a norte-americana em uma musa do atletismo dos EUA. Curiosamente, a bela morena nem sequer sabia da existência da imagem até que um amigo avisou que a foto em questão se espalhava pelos computadores norte-americanos.
A imagem da bela morena ajeitando seu cabelo enquanto se prepara para mais um salto é a razão de uma fama inesperada e, principalmente, indesejada para a garota da Califórnia. “Eu trabalhei tanto para o salto com vara e com tudo isso acontecendo é como se meu esforço não valesse nada. Ninguém nota isso”, lamentou a gata em entrevista ao prestigiado jornal Washington Post, no auge da sua “fama”.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Se os tubarões fossem homens - Bertolt Brecht

Se os tubarões fossem homens, perguntou ao senhor K. a filha de sua senhoria, eles seriam mais amáveis com os peixinhos? Certamente, disse ele. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e tomariam toda espécie de medidas sanitárias.

Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, lhe fariam imediatamente um curativo, para que não morresse antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres tem melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar. O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam evitar toda inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e avisar imediatamente os tubarões, se um deles mostrasse tais tendências. Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, iriam proclamar, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não podem se entender. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de argaço e receberia um título de herói. Se os tubarões fossem homens, naturalmente haveria também arte entre eles. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores soberbas, e suas goelas como jardim que se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos nadando com entusiasmo para as gargantas dos tubarões, e a música seria tão bela, que seus acordes todos os peixinhos, como orquestra na frente, sonhando, embalados, nos pensamentos mais doces, se precipitariam nas gargantas dos tubarões. Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa apenas na barriga dos tubarões. Além disso, se os tubarões fossem homens também acabaria a idéia de que os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores poderiam inclusive comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles teriam com maior freqüência, bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, construtores de gaiolas, etc. Em suma, haveria uma civilização no mar, se os tubarões fossem homens."